A instabilidade dos bioinsumos é um dos principais desafios que limitam a adoção de biológicas na agricultura.  

Estudos indicam que a exposição à radiação UV (ultravioleta), variações de temperatura e umidade, além da oxidação, podem reduzir drasticamente a viabilidade de agentes biológicos como fungos entomopatogênicos e bactérias benéficas, comprometendo o controle biológico. 

Em regiões de clima tropical, como o Brasil, o desafio é ainda maior, exigindo soluções inovadoras para preservar a estabilidade dos agentes biológicos até o momento da aplicação. 

Neste conteúdo, serão detalhados os mecanismos pelos quais a nanotecnologia, especialmente o microencapsulamento e a liberação controlada, tem ampliado as possibilidades de formulação de bioinsumos, trazendo avanços em estabilidade, viabilidade e desempenho, além de discutir as perspectivas e limitações dessa tecnologia para o futuro da agricultura biológica. 

Estabilidade dos bioinsumos: um dos principais obstáculos para o desempenho no campo 

A instabilidade dos bioinsumos decorre da natureza sensível dos agentes biológicos vivos, como fungos entomopatogênicos (por exemplo, Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae), bactérias do gênero Bacillus e outros microrganismos utilizados no controle biológico.  

Fatores ambientais que comprometem a viabilidade dos agentes biológicos 

A radiação UV é a principal responsável pela inativação de conídios de fungos entomopatogênicos e células bacterianas em formulações líquidas ou em pó.  

Em fungos entomopatogênicos, temperaturas acima da faixa ótima reduzem a germinação e o crescimento, e acima de 35 °C a maioria dos isolados de B. bassiana deixa de se desenvolver. Extremos de umidade (seca ou excesso) também afetam a sobrevivência dos agentes biológicos, tanto durante o armazenamento quanto após a aplicação. 

Após a aplicação, a radiação UV é um dos principais fatores de inativação de conídios de fungos entomopatogênicos e de células bacterianas não esporuladas.  

A oxidação de componentes da formulação, especialmente em formulações pouco protegidas, também pode reduzir a viabilidade dos agentes biológicos durante o armazenamento. 

Limitações das formulações tradicionais na proteção de bioinsumos 

As formulações tradicionais, como WP (pó molhável), expõem diretamente os conídios ao ambiente, tornando-os vulneráveis à radiação UV e à desidratação. Formulações OD (dispersão oleosa) oferecem alguma proteção contra a radiação UV, mas ainda apresentam limitações quanto à liberação controlada e à persistência no ambiente.  

Suspensões concentradas (SC) são utilizadas com frequência para bactérias, mas oferecem proteção limitada a conídios de fungos. O principal desafio permanece: proteger o agente biológico até o momento adequado de liberação, com desempenho e uniformidade de resultados. 

Microencapsulamento: tecnologia de proteção e entrega inteligente para bioinsumos 

O microencapsulamento é uma tecnologia que envolve o agente biológico em uma matriz protetora, formando uma cápsula microscópica capaz de protegê-lo contra as condições adversas do ambiente. 

Vale diferenciar as escalas: as microcápsulas apresentam dimensões na faixa dos micrômetros, compatível com o tamanho de conídios e células bacterianas, enquanto a nanotecnologia opera em escala nanométrica (geralmente abaixo de 100 nm). Por esse motivo, nos bioinsumos à base de microrganismos vivos, a nanotecnologia atua principalmente por meio de nanopartículas incorporadas às paredes das microcápsulas, de nanoemulsões e do encapsulamento de metabólitos, e não pelo encapsulamento individual das células em nanocápsulas. 

Como o encapsulamento preserva os agentes biológicos 

O processo consiste em envolver conídios, esporos ou células bacterianas em materiais como polímeros naturais ou sintéticos, lipídios ou estruturas inorgânicas. Essa cápsula atua como uma barreira física, protegendo o agente biológico da radiação UV, do calor, da desidratação e da oxidação.  

Quando as condições ambientais adequadas são atingidas (umidade, temperatura, pH ou contato com o hospedeiro), a cápsula se rompe ou se dissolve, liberando o agente ativo no ambiente. 

Polímeros e materiais inovadores no encapsulamento de bioinsumos 

Diversos materiais têm sido estudados para o microencapsulamento de bioinsumos: 

  • Quitosana: polissacarídeo natural derivado da quitina, biodegradável e com atividade antifúngica, o que exige avaliação de compatibilidade quando o agente encapsulado é um fungo. 
  • Alginato de cálcio: matriz formada pela gelificação do alginato de sódio com íons cálcio, aplicada tanto a bactérias quanto a conídios de fungos; após a secagem dos grânulos, a reidratação no solo atua como gatilho de liberação. 
  • PLGA (poli(ácido láctico-co-ácido glicólico)): polímero sintético biodegradável, com alta capacidade de proteção e liberação controlada. 
  • Lipossomos: vesículas lipídicas, mais comuns nas indústrias farmacêutica e cosmética, com aplicações emergentes na agricultura. 
  • Sílica mesoporosa: estrutura inorgânica com poros de dimensão nanométrica, indicada para carregar e liberar gradualmente metabólitos e moléculas bioativas. 

Esses materiais são escolhidos conforme o tipo de agente biológico, o ambiente de aplicação e o objetivo da formulação. 

Nanotecnologia aplicada: avanços em diferentes categorias de bioinsumos 

A nanotecnologia tem ampliado as possibilidades de formulação e aplicação de bioinsumos, especialmente por meio do microencapsulamento e da liberação controlada. 

Fungos entomopatogênicos: proteção e desempenho com encapsulamento 

Fungos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae apresentam conídios altamente sensíveis à radiação UV. O microencapsulamento em matrizes como quitosana ou alginato protege esses conídios contra a radiação e prolonga sua persistência após a aplicação. Nanoemulsões oleosas também têm sido estudadas para melhorar a adesão dos conídios à cutícula dos insetos.  

Estudos indicam maior persistência e viabilidade dos conídios sob radiação UV em formulações protegidas, em comparação com conídios não formulados, com resultados variáveis conforme o isolado, o material encapsulante e as condições de exposição. 

Lagarta coberta por fungo branco sobre uma folha verde com marcas de mordidas.

Bactérias benéficas: maior estabilidade com encapsulamento 

Bactérias do gênero Bacillus formam endósporos naturalmente resistentes, o que já confere boa estabilidade às formulações convencionais. O encapsulamento em matrizes como o alginato tende a ser ainda mais relevante para bactérias não esporuladas, como Azospirillum e Pseudomonas, mais sensíveis à desidratação durante o armazenamento.  

Na rizosfera, a umidade do solo favorece o intumescimento e a degradação gradual da matriz de alginato, liberando as células bacterianas de forma progressiva. 

No tratamento de sementes (TS), a cápsula pode reduzir o contato direto das bactérias com fungicidas e inseticidas químicos, favorecendo a preservação da viabilidade até a germinação.Bionematicidas e biofungicidas: inovação na formulação  

Microrganismos como Pochonia chlamydosporia e Purpureocillium lilacinum, utilizados como bionematicidas, têm sua persistência no solo aumentada pelo encapsulamento.  

O microencapsulamento de Trichoderma spp. em matrizes à base de quitosana ou alginato tem sido estudado para ampliar a viabilidade durante o armazenamento. Lipopeptídeos, como iturinas e fengicinas, também podem ser encapsulados para proteger os metabólitos da degradação por UV e temperatura, viabilizando formulações mais estáveis de biofungicidas à base de metabólitos. 

Liberação controlada: tecnologia que redefine a aplicação de bioinsumos 

A liberação controlada é o diferencial que a nanotecnologia oferece, permitindo que o agente biológico seja liberado apenas quando as condições ambientais forem ideais para sua ação. 

Gatilhos ambientais e fisiológicos para liberação programada 

  • pH: cápsulas que se dissolvem em faixas específicas de pH, como o ambiente alcalino do intestino médio de lagartas (lepidópteros) ou as variações de pH da rizosfera. 
  • Temperatura: polímeros termossensíveis que liberam o agente em faixas específicas de temperatura do solo. 
  • Umidade: reidratação, intumescimento e degradação gradual de matrizes como o alginato na presença de água, favorecendo a liberação em solos úmidos. 
  • Enzimas: cápsulas que se rompem pela ação de enzimas produzidas pelo patógeno ou pelo inseto-alvo. 

Benefícios agronômicos e operacionais da liberação controlada 

A liberação controlada pode proporcionar: 

  • Potencial redução da dose aplicada, já que o agente protegido é liberado de forma mais gradual, com menor perda. 
  • Maior flexibilidade na janela de aplicação, já que a cápsula reduz a exposição imediata do agente a condições desfavoráveis, sem dispensar as boas práticas de aplicação. 
  • Potencial menor impacto sobre inimigos naturais, em razão da liberação mais localizada. 
  • Tendência de maior uniformidade de resultados em relação a formulações convencionais. 

Panorama atual e tendências para o mercado de bioinsumos nanotecnológicos 

A nanotecnologia aplicada a bioinsumos ainda está em fase de desenvolvimento, com avanços significativos, mas com desafios a serem superados para adoção em larga escala. 

Inovações já disponíveis e fronteiras em desenvolvimento 

Formulações com nanopartículas, como as de sílica, encontram-se em desenvolvimento, mas ainda com disponibilidade comercial restrita.  

Matrizes de polímeros naturais, como quitosana e alginato, tendem a apresentar custo de produção menor que o de polímeros sintéticos, o que favorece sua aproximação do mercado.  

Tecnologias baseadas em PLGA e lipossomos permanecem majoritariamente em pesquisa acadêmica para uso agrícola no Brasil. Instituições como Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), UFV (Universidade Federal de Viçosa) e USP (Universidade de São Paulo), incluindo a Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), destacam-se entre os grupos de pesquisa na área. 

Barreiras e oportunidades para a adoção em larga escala 

Os principais desafios para a adoção da nanotecnologia em bioinsumos incluem: 

  • Custo de produção elevado, devido aos processos de encapsulamento, o que dificulta a competição com bioinsumos convencionais. 
  • Regulação: o marco legal dos bioinsumos (Lei nº 15.070/2024) define as regras de registro desses produtos, mas não há, até o momento, normativa específica para nanoformulações, o que pode exigir avaliações adicionais no processo de registro junto aos órgãos competentes. 
  • Biodegradabilidade, sendo fundamental para que os materiais utilizados não deixem resíduos persistentes no solo. 

A nanotecnologia, por meio do microencapsulamento e da liberação controlada, representa um avanço relevante para superar os desafios de estabilidade e ação dos bioinsumos. 

Embora a maioria das tecnologias ainda esteja em fase de pesquisa, os resultados já obtidos apontam para um futuro promissor, com maior previsibilidade, eficiência e sustentabilidade no manejo biológico. 

A Syngenta está ao lado do produtor rural em todos os momentos, oferecendo as soluções necessárias para construirmos, juntos, um agro cada vez mais inovador, rentável e sustentável. 

Confira a central de conteúdos Mais Agro para ficar por dentro de tudo o que está acontecendo no campo. 

Perguntas frequentes 

1. Por que os resultados do uso de bioinsumos pode variar no campo? 

Principalmente pela exposição à radiação UV, temperaturaselevadas, extremos de umidade e oxidação, fatores que reduzem a viabilidade de fungos, bactérias e outros agentes biológicos. 

2. O que é microencapsulamento? 

É a tecnologia que envolve o agente biológico em uma matriz protetora (cápsula microscópica), protegendo-o contra as condições adversas até que o gatilho correto — pH, temperatura, umidade ou enzimas — libere o agente no ambiente. 

3. Quais materiais são usados para encapsular bioinsumos? 

Quitosana, alginato de cálcio, PLGA, lipossomos e sílica mesoporosa, escolhidos conforme o tipo de agente biológico e o objetivo da formulação. 

4. O microencapsulamento já está disponível comercialmente? 

Parcialmente. Matrizes de polímeros naturais, como quitosana e alginato, estão mais próximas do mercado por apresentarem menor custo de produção; tecnologias com PLGA e lipossomos ainda estão majoritariamente em pesquisa acadêmica no Brasil. 

5. Quais os principais benefícios da liberação controlada? 

Potencial redução da dose, maior flexibilidade na janela de aplicação, menor impacto sobre inimigos naturais e maior uniformidade de resultados. 

6. Quais os principais obstáculos para a adoção em larga escala? 

Custo de produção elevado, ausência de normativa específica para nanoformulações e a necessidade de avaliar a biodegradabilidade dos materiais utilizados.